Relacionamentos
Amar e ser amado é o desejo de todos nós, mas isso nem sempre é fácil. O Via RS entrevistou a psicóloga e psicoterapeuta de casais Helena Scherer sobre questões importantes para os relacionamentos amorosos. Tire suas dúvidas!
* Helena Scherer é psicóloga e psicoterapeuta de adultos, casal e família. 9953.7228
helena.scherer@ibest.com.br
1. Quais os principais fatores que mantêm um casal unido?
A base, o alicerce da relação é o afeto, o vínculo que existe entre as duas pessoas. E isso depende também do modelo de relacionamento que a pessoa traz em sua bagagem emocional e familiar. Há muita repetição do modelo do relacionamento dos pais da criança. Outro ponto importante é aceitar o parceiro como ele é, não ficar idealizando.
2. Como é possível manter o encantamento mesmo com o passar do tempo?
A paixão, o amor, isso é o mais importante, mas também é o mais difícil. O amor é incontrolável, e por isso traz o risco do sofrimento. As pessoas querem amar, mas também têm medo de se entregar. É preciso ter maturidade para tolerar as coisas que te desagradam no parceiro, saber que nem tudo vai ser do jeito que você deseja.
3. Mas até que ponto devem ser tolerados essas diferenças?
Até o ponto de se viver bem com isso. Esses desajustes não devem tolher a identidade dos envolvidos. É preciso manter a satisfação com o relacionamento, ser feliz.
4. E quando acontecem esses problemas, o que deve ser feito?
Bom, é preciso tentar ajustar a situação. Cada caso tem suas peculiaridades. Alguns são problemas temporários, outros são permanentes, e aí nesse caso é melhor separar. Recomenda-se buscar ajuda, como terapia de casal, para tentar resolver essas crises.
5. Falando nisso, as crises de 3, 5, 7 anos existem de fato ou são mitos?
Sim, mas não pelos anos em si, isso é cultural. Mas é natural que depois de certo tempo as pessoas façam um balanço de seu relacionamento, devido às mudanças que acontecem com cada um e no casal. São momentos de questionamento.
6. Discutir a relação?
Não acredito muito em discutir a relação, em "pensar" a relação. Viver e sentir, esses são os melhores termômetros de um relacionamento. Se está com problemas, não adianta muito sentar para discutir, saia para dançar com seu companheiro, sinta. Isso às vezes adianta muito mais do que tentar intelectualizar os sentimentos. Claro que algumas coisas devem ser faladas, mas não deve ficar só nisso.
7. Quais os principais fatores que afastam um casal?
O contrário do que une: o não entendimento, a falta de tolerância, a imaturidade, no sentido de ser inflexível, e a manutenção de aspectos infantis de relacionamento, como querer que a esposa seja como a mãe.
8. As pessoas ainda namoram pensando em casar ou mudou esse arquétipo?
Sim, existe a vontade de amar, se apaixonar, casar, e querer ficar com essa pessoa. Mas ao mesmo tempo, as pessoas fogem um pouco disso. Estão muito defensivas, querendo se proteger desse sentimento que fragiliza. Estão buscando uma proteção do real envolvimento. As pessoas estão menos românticas.
9. Por que algumas pessoas tem mais "sorte" do que outras no amor? Qual o diferencial?
Isso depende muito da formação, do modelo que a pessoa teve, do seu histórico de relacionamentos. Se na infância ela recebeu afeto, foi amada, ela terá mais confiança para envolver-se amorosamente na vida adulta.
10. Mas é possível modificar esses modelos infantis, se eles forem negativos?
Claro, com terapia. O objetivo da terapia é justamente mostrar que há modelos alternativos.
11. Até que ponto o ciúme é saudável e a partir de que momento ele se torna prejudicial?
Sentir ciúme é normal. Quem ama tem ciúme. O problema é que as pessoas não suportam sentir ciúme e tentam destruir esse sentimento. Como não conseguem, tentam controlar a outra pessoa, para evitar situações que provoquem essa insegurança. Esse controle acaba se tornando patológico.
12. Quando é o momento para pensar em filhos?
O momento ideal para ter filhos é o momento em que acontece, quando os dois desejam. Não adianta planejar muito, se não há desejo na hora. Se a criança for desejada, vai nascer num ambiente com muito afeto, muito amor, e isso é o que mais importa.
13. Como lidar com filhos de outro relacionamento?
Deve-se estar aberto para os filhos de relacionamentos anteriores. Não encará-los como intrusos, e sim tentar integrá-los à vida do casal de forma afetuosa.
14. Qual o tipo de relação do novo século?
As mulheres estão mais liberadas. Mudou a idéia do casamento por obrigação. Elas estão indo atrás de uma relação que realmente as satisfaçam. As pessoas, de forma geral, estão em busca de sua felicidade, e isso é ótimo. Casamentos por obrigação não funcionam. E hoje as pessoas estão refazendo casamentos, famílias, em busca da felicidade.
15. O "novo homem" já achou seu papel na relação conjugal?
O homem está diferente, sim. Como a mulher mudou, ele viu-se obrigado a mudar também. Hoje, ele está mais inseguro, sem saber direito o que fazer. Antes, ele assumia aquela pose de machão como defesa para sua fragilidade. Hoje, essa postura já não é a mais adequada, e o homem está mais sensível, admitindo sua fragilidade. Isso é bom, mas por outro lado, têm provocado medo de envolvimento.
16. Como as pessoas estão lidando com o amor?
Bom, por ser um sentimento tão importante, o amor é tão difícil. A sociedade sempre tentou controlar, colocar ordem nesse sentimento que é tão desordenado, através do casamento, da religião, etc. Porque o ser humano não é por natureza monogâmico. Hoje as pessoas estão desreprimindo-se e buscando sua satisfação.
17. Então a fidelidade é uma utopia?
Sim, de certa forma. Geralmente as pessoas traem porque estão em busca de algo bom para elas, não para magoar o outro (se a traição for sistemática apenas para agredir o parceiro, aí temos problemas psicológicos, é outro caso). Mas se for porque surgiu outra pessoa que a faz feliz, aí ela deve pensar primeiro em si, em sua felicidade. O amor próprio deve estar em primeiro lugar.
18. E isso é discutido abertamente na relação?
Isso tudo ainda é difícil de aceitar. É complicado um casal falar sobre isso. Mas se surgiu a infidelidade, quer dizer que há algo errado na relação, pois se há amor não há espaço para uma terceira pessoa. Apesar disso, não acredito muito em casamentos abertos. Nos casos que acompanhei, o casal não estava realmente ligado um ao outro.
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